terça-feira, 8 de setembro de 2015


PARQUE MAYER




Foi um dos principais pólos de animação alfacinhas, principal palco da alegre, irreverente e brejeira revista à portuguesa.

Ali atuaram, vezes sem conta, ilustríssimos nomes do teatro português, quando não era permitido falar e quando falar já era (mais ou menos) permitido.

Referir aqui alguns deles seria, injustamente, omitir outros;  lembrar algumas revistas levadas à cena, omitir outras tantas que também não é possível esquecer.

Eram, também, muitas as estruturas de apoio, sendo, sempre, de destacar os diversos e populares restaurantes e, essencial ao funcionamento de qualquer das quatro salas de espetáculo, o quase centenário Guarda-Roupa Paiva



Hoje, porém, é ao estacionamento de viaturas que se encontra reduzida quase toda a atividade do saudoso Parque Mayer.

Gorado o projeto de revitalização que incluía o Casino de Lisboa - entretanto construído do Parque das Nações -, é a esta nóvel vertente «cultural» que parecem, também,  estar votados os espaços correspondentes a, pelo menos, dois dos quatro teatros.


Decidida mesmo, está a conversão em parque de estacionamento do Teatro ABC, do qual aqui podemos ver uma imagem bem atual;  e muito bem, porque os parques de estacionamento geram, à Câmara, muito mais receita, e são bem mais necessários do que os espaços culturais à nossa Capital.
For those who are not artists,
and to whom there is no mode of life but the actual life of fact,
pain is the only door to perfection.

Oscar Wilde, in 'The Soul of Man Under Socialism'

No Parque de Estacionamento Mayer existem, ainda, na construção original, dois teatros:  o Maria Vitória, e o Variedades.
O primeiro destes é, atualmente, o único dos quatro teatros ainda operacional.

Um placard na bilheteira, à entrada do Parque, anuncia mesmo que "Estamos a preparar uma nova revista.  Brevemente".



Talvez sim, e espero, sinceramente, que sim.  Mas espero, também, que o interior se encontre em melhores condições do que o que o exterior permite adivinhar.




Mas passámos, logo à entrada do florescente estacionamento, do lado esquerdo, pela carcassa abandonada, devoluta e, provavelmente, arruinada do Teatro Variedades.

Quanto a este, no local as opiniões dividem-se, e diz-se que, a cada dia que passa, se muda de intenções:  recuperá-lo, vendê-lo a quem o quiser comprar ou - cenário dado como mais provável -, dar-lhe o mesmo destino que ao ABC:  arrasá-lo, e ampliar...  a área do Parque de Estacionamento Mayer, claro está!

Ao nível do solo, para tapar as misérias, uma evocação, em tela, da revista à portuguesa ao longo do séc.XX.

Esbatida, derrotada, triste...  como quase tudo o resto no Parque, aliás.



Reparem, no entanto, que a cobertura parece estar, ainda, em razoáveis condições, o que leva a crer que o interior ainda o estará, também.

Não será de, pelo menos, tentar fazer alguma coisa, antes que a deterioração o terne irrecuperável?

Ou estar-se-á, precisamente, à espera disso?





À desolação generalizada do Parque, há uma (infelizmente única) exceção:  o em tempos Teatro - e mais tarde cinema porno - Capitólio, completamente recuperado e renovado, agora em flagrante contraste com o pobre Variedades.

Diz-se por ali, não sem certo orgulho, que foi o primeiro edifício em Lisboa a ser recuperado, sem tocar na estrutura, inteiramente com materiais iguais aos da construção original.

Bem, olhando para aquelas modernas vidraças coloridas das janelas, ninguém diria, mas, também não vale a pena estragar o efeito:   admitamos que possa haver uma ou outra exceção...

No entanto, nem aqui tudo vai bem.

Ao que parece, a obra deveria ter ficado concluída no prazo de um ano e... já lá vão três e mais meio.

A anterior construtora terá entrado em insolvência, o que terá provocado a derrapagem no tempo (aliás, habitual, como se sabe, em quase tudo quanto na Cidade Alfacinha se constrói).

Mas, haja esperança:  andam por lá umas pessoas a trabalhar!

Quando inaugurado, o Capitólio vai ser repatizado como Teatro Raul Solnado.

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Antes ou depois do espetáculo, era mister um repasto num dos restaurantes do Parque.

Destes, apenas resta o Júlio das Miombas, agora renomeado "Gina".

Do Manecas e dos outros... ficou o que aqui se vê.

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Na zona "escondida" do Parque, reina, também, a desolação.


Nada mais do que mato, escombros e ruínas, evocando a sensibilidade e a extrema competência e eficácia do marketing de certas pessoas.



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No Estacionamento Mayer, a arte, agora, é outra.
Arte, sem dúvida.  Mas, aqui, deslocada.
Ou talvez não, tratando-se, afinal, de um parque... de estacionamento.

Perdido o casino, para ali ficou o Parque Mayer:
esquecido, desleixado, abandonado, ignorado, já quase sem esperança.

Como é possível que uns quantos filisteus
mais não vejam do que um próspero parque de estacionamento da EMEL,
num monumento único à revista à portuguesa,
uma vertente tão específica, tão significante do nosso património cultural ?

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Deixei, propositadamente, para o fim outra coisa que,
no Parque Mayer, não deve, não pode acontecer.

Este local situa-se na área geográfica de intervenção da Junta de Freguesia de Santo António.


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